No começo desta madrugada eu assisti um episódio de Greys Anatomy que dizia que você nunca sabe qual será o dia mais importante da sua vida até que este dia aconteça.
Como eu poderia imaginar que a minha vida mudaria tanto em um sábado de 1994?
Ele veio sem aviso. Minha tia telefonou para a minha mãe e falou: "Tenho um filhotinho de poodle, você quer?"
Minha mãe deve ter consultado o meu pai (ou não) e falou um sonoro SIM.
Naquela manhã de 1994, minha vida mudou. Ou melhor, a vida da minha família mudou. 
Eu me lembro claramente do primeiro momento em que o vi. Parecia um brinquedo. A partir daquele momento eu senti amor instantâneo por aquele bichinho que cabia na palma da minha mão.
Ele já veio com um nome: Dunga. Em homenagem ao volante do campeonato mundial de futebol conquistado naquele ano.
Detestamos.
Virou Pierre assim que a minha tia saiu de casa.
E assim, o Pi entrou nas nossas vidas. Não soubemos criá-lo. Ele cresceu e se tornou um cachorro que pensava que era gente. Queria dormir em nossas camas, conseguiu. Queria comer a nossa comida, conseguiu. Queria mandar nas nossas vidas, conseguiu.
Ele teve tudo o que ele quis, na hora em que quis. E ai de quem o contrariava: o indivíduo era ameaçado com uma lufada de bafo quente e possibilidade concreta de decepação de dedos.
"Humor de cão" cabia muito bem para o Pierre. Era um bicho carrancudo e temperamental.
Como eu.
Nenhum cão jamais será companheiro como ele foi. Pierre passou por todos os momentos realmente tensos da família. Nos acompanhou na alegria e na tristeza e na saúde e nas doenças. Sem medo de usar clichês, pois o Pipa merece todos os clichês do mundo: ele foi o nosso anjinho.
Assim como chegou sem aviso, hoje o Pipa se foi quase sem se despedir.
Começou a passar mal no mesmo momento em que eu assistia este episódio de Greys Anatomy que citei no começo deste texto.
Vomitou muito, não enxergava, batia nas paredes e teve algumas convulsões mais prolongadas do que o de costume.
Passei quase a madrugada inteira com o Pierre no colo.
Quando eu o soltava, ele fugia de mim. Tentou se esconder em outro quarto. E em algum momento desceu as escadas sozinho e foi se deitar na sala com os outros cachorros.
Parece que é realmente verdade que um cachorro se afasta no momento da morte.
Em alguma fração de segundo da noite, ele ficou bem. Eu sosseguei e fui para a cama tentar dormir as duas horas que me restavam.
Na hora em que acordei, ele já não estava bem. Nova convulsão, sem muitas reações.
Pela manhã, constatamos o óbvio: O Pierre estava morrendo.
Às 06h45min de hoje, me despedi dele. E até aquele momento, ele sabia quem eu era. Consciente até o último minuto. Eu tentei provocá-lo a ter alguma reação. Queria na verdade que ele mordesse os meus dedos até sangrar.
Mas eu sabia que era a última vez que eu via meu cachorrinho.
Chorei de casa até o aeroporto. Chorei durante todo o vôo que me trouxe para Florianópolis.
E me acalmei.
Eu gosto mais do Pierre do que gosto da maioria dos seres humanos. E este gosto sempre será no presente. Eu amo.
Ele dormia todos os dias no meu pé. Comia junto comigo. Me seguia pela casa. Tentava enganar a mim e a minha mãe, fingindo que dormia com as duas. Na verdade, passava a noite trocando de quartos para a gente não perceber!
Pierre me amou incondicionalmente.
E eu vou amá-lo para o resto da minha existência.
Nunca haverá um cão como ele.
Você nunca sabe qual será o dia mais importante da sua vida até que este dia aconteça.
Garáaaaaaaaaaaauuuuuuu