A escolha sempre foi óbvia.
Mil novecentos e setenta e sete foi um ano mágico para os fiéis. Na noite chuvosa de 21 de setembro de 1977, o Corinthians jogava no Pacaembu quando a minha mãe teve que sair para um compromisso inadiável. Jogando para exatos 41.198 torcedores, o Timão foi derrotado pelo Guarani de Campinas pelo placar de 1 a 0, gol de Ziza aos 19 minutos do segundo tempo. O relógio marcava aproximadamente 22h20min no momento do gol do Guarani e quase 23 horas quando o jogo acabou. A situação do Corinthians no campeonato se complicava. Teria que vencer os três jogos das últimas rodadas para conseguir a classificação para a grande final.
Eu nasci as 23h15min deste dia.
A partir deste instante, deste momento em que eu comecei a existir, o Timão não perdeu mais naquele turno do campeonato. O time (na foto) embalou três vitórias seguidas (contra Botafogo, Portuguesa e São Paulo) e avançou para a finalíssima do campeonato paulista de 1977.
Três jogos difíceis com a Ponte Preta deram o título ao Timão. O primeiro em 22 anos, 8 meses e 6 dias. O final da enorme e sofrida fila!
Acho que não é exagero dizer que eu sou corinthiana desde 21 de setembro de 1977.
Não tenho nenhuma lembrança de “dúvida”. Todas as minhas primeiras lembranças futebolísticas são corinthianas. Lembro de assistir à final do Campeonato Paulista de 1982 em nossa casa na (avenida?) Rua Pires Pimentel em Bragança Paulista, com várias pessoas da minha família. A parte bragantina da minha família tinha muitos são paulinos, era um ambiente propício para uma criança de quase cinco anos virar a casaca.
E mesmo naquele momento, eu me lembro de ser abertamente e decididamete corinthiana.
Só que nos anos 80 não era normal ver meninas que gostassem de futebol, como hoje é. Lembro de fingir que estava dormindo no quarto para escutar (baixinho) os jogos do Corinthians. Eu era certamente a mais interessada de casa.
A parte de esportes do jornal era sempre a primeira que eu escolhia quando aprendi a ler. Aliás, é um hábito que herdei ou imitei do meu irmão mais velho. E até hoje é assim. Chega o jornal, o caderno de esportes é o primeiro a ser folheado.
O título paulista de 1988, com o famoso gol de Viola de peixinho contra o Guarani (olha ele aí de novo na minha vida!) foi o primeiro que eu comemorei de verdade. Foi uma grande ocasião, uma gigante celebração. Lembro da minha alegria no dia seguinte! Das maravilhosas capas dos jornais! De rever aquela comemoração do Viola diversas vezes na televisão.
Aliás, eu adicionei o Viola no Orkut só por causa disto. Ele me deu a minha primeira alegria corinthiana e jamais me esquecerei dele.
Aí chegou o Brasileiro de 1990. Acompanhei com muito entusiasmo os jogos de Neto. Mas no dia da grande final, algo insano aconteceu. Minha mãe (ou algum outro sádico da minha família) me “emprestou” para a minha tia Ivete para que eu brincasse com a minha prima Tatiana na casa dos parentes delas.
Não vi o jogo que nos deu o primeiro título brasileiro. E ainda estava no meio de naturalmente desinteressados são paulinos! Decepção gigante.
Taí seres que nunca entendi: os são paulinos. Minha melhor amiga da vida toda, a Marina, sempre foi são paulina doente. E na infância eu não entendia como isto poderia acontecer. Como a MINHA amiga poderia ser são paulina? Como poderia existir alguém no mundo que não soubesse apreciar a beleza do Timão e como alguém poderia se privar da alegria de ser corinthiano?
Aprendi a aceitar a insanidade alheia. Aprendi que a grandeza de um time não se mede na quantidade de títulos conquistados e sim na devoção de sua torcida e entrega das suas equipes.
O tempo se foi num lento piscar de olhos, mas o interesse nunca passou. Só aumentou.
Eu poderia escrever um livro de histórias sobre os 21 anos que separam aquele gol de Viola do dia de hoje.
Mas o que me inspirou a escrever este texto relembrando o começo da minha vida corinthiana foi a grande atuação do Timão ontem.
O Corinthians passou quatro anos desacreditado. Teve times péssimos com atletas mercenários ou desinteressados. Colecionou dirigentes corruptos e foi castigado com o pior: a horrorosa queda para a segunda divisão.
Os quatro anos de inferno do Corinthians coincidiram com os quatro piores anos da minha vida.
Só que no ano passado o Corinthians renasceu.
E eu também.
Curti cada minuto da nossa vitória de hoje pois a equipe de Mano Menezes me faz sentir o maior orgulho de ser FIEL.
Este time pode não ser o Campeão Paulista, mas o melhor eles já fizeram. Recolocaram o Timão na rota do orgulho, da garra e das grandes conquistas.
É o melhor time do mundo? Não.
Mas nenhum outro me faria sentir assim.
Sinto muita pena de quem vai morrer sem ter sentido mesmo por poucos minutos a alegria de ser corinthiano.